Ilustração de um celular com cartões coloridos de uma lista de publicações, ao lado de uma mesa com uma xícara e uma planta, em tons de azul e verde.

FOMO: o que é o medo de ficar de fora e como lidar com ele

Entenda o que significa FOMO, como o medo de ficar de fora pode aparecer no cotidiano e que atitudes podem ajudar a lidar com essa sensação.

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Sábado à noite. Você está em casa, descansando, e abre o celular. Aparece a foto de um grupo de amigos em um show, depois um jantar com pessoas que você não vê há meses, depois uma viagem que parece ter sido combinada por todo mundo, menos por você. O descanso que estava bom de repente parece pouco, e surge um pensamento: “todo mundo está vivendo algo importante e eu estou de fora”.

Essa sensação ganhou um nome popular: FOMO, sigla em inglês para fear of missing out, que pode ser traduzida como medo de ficar de fora. Se você se reconheceu nessa cena, isso não quer dizer que haja algo errado com você: é uma experiência comum o bastante para ter ganhado nome. Neste texto, vamos ver o que ela é, como pode aparecer no dia a dia e o que pode ajudar a lidar com ela.

O que é FOMO — e o que não é

Pesquisadores definiram o FOMO como uma apreensão generalizada de que outras pessoas possam estar tendo experiências gratificantes das quais a pessoa está ausente, acompanhada do desejo de se manter conectado ao que os outros estão fazendo (Przybylski et al., 2013, tradução livre). Em palavras simples: é a preocupação de estar perdendo experiências, oportunidades ou conexões que outras pessoas parecem viver.

FOMO é um nome para uma experiência, não um diagnóstico. Sentir isso de vez em quando, ao ver um convite que não foi possível aceitar, por exemplo, faz parte da vida social. O que muda de uma pessoa para outra é a intensidade, a frequência e o espaço que a sensação ocupa na rotina.

Vale lembrar também que uma publicação é um recorte. Fotos e vídeos costumam ser escolhidos, editados e postados em momentos específicos. O que aparece na tela não mostra o dia inteiro de ninguém, nem o cansaço, o tédio ou as dúvidas que podem ter vindo antes e depois.

Como essa sensação pode aparecer

Cada pessoa vive isso de um jeito. Algumas possibilidades:

  • checar o celular com frequência para ver se algo está acontecendo;
  • comparar a própria rotina, o trabalho ou o fim de semana com o que os outros mostram;
  • aceitar convites por receio de perder algo, mesmo sem vontade de ir;
  • ter dificuldade de aproveitar o momento presente, com a atenção dividida entre o que acontece ali e o que poderia estar acontecendo em outro lugar;
  • sentir inquietação depois de ficar um tempo sem se atualizar.

Essa lista não é um teste e não serve para tirar conclusões sobre você. Cada um desses comportamentos pode ter muitas explicações, como curiosidade, hábito, cansaço, exigências do trabalho ou vontade de estar com alguém. Nem tudo é FOMO, e nem tudo vem das redes sociais.

Redes sociais e comparação

Os feeds reúnem, em poucos minutos, recortes selecionados da vida de muitas pessoas, o que pode favorecer a comparação. Comparar-se, aliás, é um movimento antigo: a teoria da comparação social, proposta pelo psicólogo Leon Festinger em 1954, descreve que as pessoas tendem a avaliar suas opiniões e capacidades comparando-se com outras (Festinger, 1954).

Os estudos sobre o tema costumam mostrar associações, não relações simples de causa e efeito. Na pesquisa que propôs uma medida de FOMO, níveis mais altos do sentimento estiveram associados a menor satisfação de necessidades psicológicas, a humor e satisfação com a vida mais baixos e a maior uso de redes sociais (Przybylski et al., 2013). Esses dados não permitem dizer o que vem primeiro nem que as redes sociais sejam a causa.

Uma revisão de estudos sobre redes sociais e bem-estar (Verduyn et al., 2017) observou que o uso passivo, em que a pessoa apenas olha o que os outros publicam, esteve associado a pior bem-estar, e que o uso ativo, de interagir e conversar, esteve associado a melhor bem-estar em alguns estudos. Os autores apontam a comparação social e a inveja como caminhos possíveis para o efeito do uso passivo. Ainda assim, a pesquisa descreve tendências em grupos, e não o que acontece com você: o contexto, as necessidades e a história de cada pessoa mudam muito a experiência.

Perguntas para perceber o seu próprio padrão

Em vez de procurar a resposta certa, use as perguntas abaixo como um convite à curiosidade. Se quiser, anote o que vier, sem se cobrar:

  • Como me sinto antes e depois de usar determinada rede?
  • Estou escolhendo participar porque quero ou apenas por medo de ficar de fora?
  • O que eu gostaria de fazer com meu tempo e minha atenção agora?
  • Quais perfis, horários ou situações costumam despertar mais comparação em mim?

As respostas não formam um resultado nem um diagnóstico. Servem para você conhecer melhor as próprias escolhas.

Estratégias do dia a dia para experimentar

Nenhuma delas é regra, e o que ajuda uma pessoa pode não ajudar outra. Fique com o que fizer sentido para a sua rotina:

  • Perceba o que desperta comparação. Observe quais aplicativos, perfis ou momentos do dia deixam você mais inquieto e, se fizer sentido, ajuste o que acompanha.
  • Ajuste as notificações. Reserve alguns momentos sem checagem, como uma refeição ou uma conversa, de forma realista, sem metas rígidas.
  • Escolha por interesse e valores. Antes de aceitar um convite, pergunte-se se você quer ir ou se quer apenas acompanhar o que os outros fazem.
  • Converse com alguém de confiança. Dizer em voz alta o que sente pode ajudar a ver a situação com mais clareza.
  • Cultive presença no que escolheu fazer. Quando estiver em uma atividade que escolheu, tente notar o que acontece ali, como a conversa, os sons e as sensações, e volte a isso quando a atenção for para outro lugar.

Nada disso é uma promessa de que a sensação vai embora, nem uma recomendação de “detox digital” para todo mundo. Para algumas pessoas, usar menos ajuda; para outras, o que muda é a forma de usar. Observe o que funciona para você.

Quando buscar apoio

Sentir incômodo ao ver o que os outros publicam é diferente de viver com um sofrimento que não passa. Pode ser útil conversar com um psicólogo quando essa preocupação causa sofrimento persistente ou começa a interferir no sono, nas relações, no trabalho, nos estudos ou em atividades importantes para você.

Este texto é informativo: não faz diagnóstico, não indica tratamento e não substitui a avaliação de um profissional.

Se você sente que essa preocupação tem afetado seu bem-estar, conversar com um psicólogo pode ajudar a compreender o que está acontecendo.

Para terminar

Você não precisa acompanhar tudo para ter uma vida significativa. O que os outros mostram é só uma parte do que vivem, e o que importa para você pode estar em escolhas menos visíveis. Observe suas escolhas com gentileza e procure apoio se sentir necessidade.

Fontes

  • Przybylski, A. K.; Murayama, K.; DeHaan, C. R.; Gladwell, V. Motivational, emotional, and behavioral correlates of fear of missing out. Computers in Human Behavior, v. 29, n. 4, p. 1841–1848, 2013. https://doi.org/10.1016/j.chb.2013.02.014
  • Festinger, L. A theory of social comparison processes. Human Relations, v. 7, n. 2, p. 117–140, 1954. https://doi.org/10.1177/001872675400700202
  • Verduyn, P.; Ybarra, O.; Résibois, M.; Jonides, J.; Kross, E. Do social network sites enhance or undermine subjective well-being? A critical review. Social Issues and Policy Review, v. 11, n. 1, p. 274–302, 2017. https://doi.org/10.1111/sipr.12033

Traduções do inglês feitas pela redação. Os estudos citados descrevem associações em grupos de pessoas e não permitem concluir causa e efeito nem prever o que acontece com cada pessoa.